Jornal Nacional – 04 de junho de 2011

Além de contrabandistas e traficantes, polícia e Exército enfrentam a falta de recursos e de estrutura para operar em estradas, no campo e na floresta. Selva amazônica, nua e crua. Maturacá é terra de índios ianomâmis. Para chegar ao local, voamos 800 quilômetros de Manaus rumo a São Gabriel da Cachoeira. Lá, pegamos helicóptero e viajamos mais 130 quilômetros. Veja aqui a matéria completa.

A selva é a vida dessa gente. E com uma selva desse tamanho, tem que pegar muita estrada, muito rio, para tentar vigiar os 11 mil quilômetros de fronteira amazônica. Garimpo clandestino, extração ilegal de madeira, biopirataria e tráfico de drogas.

Os desafios são muitos: barco carregado tem abordagem na certa. Mas uma constatação favorece os criminosos: 22 mil quilômetros de rios navegáveis, para apenas 21 pelotões de fronteira. “Não tenho dúvida de que é muito pouco. E a estratégia nacional de defesa já está pensando no aumento significativo dessa tropa”, declarou general Luís Carlos Gomes Mattos, chefe do Comando Militar da Amazônia.

Após sete horas de voadeira, cai a luz. É hora de parar. “Aqui, a gente tem a presença de onça. A gente vai montar um fogo para tentar impedir que essa onça chegue até o nosso acampamento”, explicou o sargento Edvaldo José Pacheco, do Departamento de Operações de Fronteira.

Foi durante uma pausa no meio da selva que o pelotão especial encontrou quatro traficantes colombianos, que tentavam fugir do Brasil. “Tiveram uma apreensão de armamentos, fuzis, pistolas, munição e perto de R$ 1 milhão”, conta o militar.

De Maturacá, na Amazônia para Laguna Carapã, em Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. No Mato Grosso do Sul, uma força policial também se destaca pela missão perigosa – e por que não dizer impossível – de patrulhar área de fronteira, escancarada para todo tipo de crime. Ao todo, 96 policiais têm o desafio de vigiar 500 quilômetros com o Paraguai e a Bolívia. A 1h30, a patrulha parou dois carros em uma estrada de terra perto do Paraguai. E um dos carros não tem nem banco mais. Está todo adaptado para transportar contrabando.

O motorista acabou confessando para os policiais que ele deixou uma carga enorme de meias trazidas do Paraguai. “Infelizmente, sem a carga, não podemos fazer nada”, diz o policial.

O efeito surpresa é a principal tática do Departamento de Operações de Fronteira (DOF). Às 16h, eles montam bloqueio a 150 quilômetros do Paraguai.

Laércio Santos da Silva diz que é motorista de van no Rio de Janeiro e que a camionete da maconha foi encomenda de um contato dele. Ele acaba revelando também que ia entregar a droga na Dutra.

Enquanto isso, os policiais encontram droga em toda lataria do carro. A caminhonete está recheada de tabletes de maconha. No total, 172 quilos de maconha paraguaia que cruzou a nossa fronteira em Ponta Porã. Só este ano, o DOF já apreendeu mais de 7,5 toneladas de drogas. Alívio ou ainda mais preocupação? “Infelizmente, o número de policiais é inferior ao número de pessoas que fazem coisas erradas”, comentou o sargento Edvaldo José Pacheco.

Na selva do crime, na selva de fato, quem luta contra fronteiras escancaradas, não vive de ilusão, vive um dia após o outro.

“A sensação é de que nós temos um ideal a cumprir”, declara um capitão do Exército. “A minha parte eu estou fazendo e quero fazer da melhor forma possível”, aponta um policial DOF. “Eu consegui tirar essa droga de circulação”, comemora outro policial.