Valor Econômico – 19 de Julho de 2012

A BMFBovespa está dando um primeiro passo para atingir dois antigos objetivos: internacionalizar a bolsa brasileira e ampliar a base de investidores, tanto institucionais quanto de varejo. Nesta semana, juntamente com sua parceira, a Chi-X Global, fornecedora global de tecnologias de infraestrutura de mercado, divulgou que deu início à certificação da plataforma Chi-FX Brasil, que permitirá a negociação no exterior de ações listadas na BMFBovespa nas moedas locais. A plataforma deve ser lançada no fim deste ano.

Algumas das maiores corretoras do país, no entanto, apontam entraves ao sistema, batizado de Brazil Easy Investing (BEI). Entre eles, estão a burocracia envolvida no cadastro do investidor individual, o que inclui a necessidade de o estrangeiro ter um Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), e a impossibilidade de ofertar as ações sem uma corretora parceira local, explica Amerson Magalhães, diretor do Easynvest, plataforma da Título Corretora.

“Essas questões reduzem a possibilidade de penetração em outros países”, diz. “No passado, as instituições responsáveis conseguiram simplificar o cadastro de clientes institucionais. Hoje o processo para tirar o CNPJ é rápido”, revela. Outro problema é o custo em si. “Para justificar o custo de integração com o sistema CHI-X e de seu uso, certamente é preciso ter volume (de negócios)”, explica Magalhães, ao justificar por que a Título não participará do projeto neste momento.

A Icap também não pretende aderir ao BEI, por enquanto. “Estamos acompanhando de perto, mas não é uma das nossas prioridades”, afirma Paulo Levy, diretor do home broker da Icap. Entre os participantes do mercado procurados pela reportagem que responderam antes do fechamento desta edição, a Bradesco Corretora informou que vai participar do BEI, enquanto a Mirae Asset se limitou a informar que está conversando com a BM\u0026amp;FBovespa.

O executivo de uma grande corretora independente, que não quis ser identificado, afirmou que não acredita valer a pena participar da fase inicial. “Aderir é trabalhoso e custoso e não sabemos do sucesso do projeto”, diz. Ele admite, porém, que as corretoras que desejarem conquistar mercados no exterior precisarão ser as primeiras a entrar nesse jogo. “A única possibilidade de ter sucesso é ser uma das primeiras a oferecer o produto”, explica. “Se tudo começar a correr bem e sentirmos que o produto é bom, entraremos no circuito com mais força e correremos atrás do tempo perdido”, acrescenta.

O sistema BEI fará a conversão da cotação das ações listadas na bolsa para moedas de outros países. Para gerar os valores das ações nacionais em moeda estrangeira, vai combinar os preços das ações em reais com as taxas de câmbio fornecidas em tempo real pelos bancos que utilizarem a solução. As corretoras receberão as cotações já em moeda estrangeira, para que possam divulgar aos clientes.

Segundo o comunicado externo enviado pela BMFBovespa a participantes do mercado, o processo de negociação será o seguinte: a partir de uma ordem emitida em nome do investidor estrangeiro, o software dará permissão para o envio simultâneo à sua corretora e também ao seu banco no Brasil. Assim, ele poderá realizar a operação no sistema de negociação de ações da BMFBovespa e efetivar a operação de câmbio relacionada.

André Demarco, diretor de Operações da BM\u0026amp;FBovespa, explica que a fase de certificação dos participantes de mercado interessados vai durar seis meses, entrando em sistema de produção ao fim do ano. Nesse período, corretoras e bancos poderão testar o software. A iniciativa, afirma, faz parte da estratégia da bolsa de valores para desenvolver o mercado de capitais brasileiro.

A necessidade de o investidor pessoa física tirar CPF para comprar ações listadas na bolsa brasileira continuará existindo, explica Demarco. “Isso não mudou. Porém, há uma discussão para simplificar o processo de geração de CPFs. “O tema está sendo discutido pela Receita Federal e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mas por enquanto não temos uma previsão de mudança no procedimento.”

O apelo do produto está na oferta das ações na moeda do investidor local. “É como se ele escutasse um canal já em seu idioma, o que facilita o entendimento e torna a decisão de investimento mais rápida. Além disso, na hora em que toma uma decisão, são gerados dois negócios simultaneamente: a ordem de compra e a conversão na moeda. O produto é um facilitador”, afirma o executivo da bolsa de valores.

Tal Cohen, CEO da Chi-X Global, explica que é a primeira vez que a empresa se envolve em um projeto desses. Questionado acerca da escolha pelo Brasil, ele diz que havia uma demanda crescente nos Estados Unidos e em países asiáticos pela compra de ações listadas na bolsa brasileira. “O produto tem grande potencial de crescimento futuro. Todo novo produto demora certo tempo para deslanchar, mas há um forte interesse por parte dos investidores. Outro ponto a favor é que em todo o mundo cresce a negociação de ações via plataforma eletrônica (home broker) e isso deve favorecer o BEI”, completa.