Valor Econômico – 10 de janeiro de 2020
Dizer que os investidores não voltarão a ter retornos altos na renda fixa por um bom tempo já virou uma máxima no mercado financeiro. Isso acontece devido aos cortes da taxa básica de juros, já que a rentabilidade de muitos desses produtos tem como referência a Selic. Mas, segundo especialistas, um retorno menor não significa que a renda fixa pode ser dispensada da carteira da maioria dos investidores – e ainda há produtos no segmento com rendimentos atrativos.Desde outubro de 2016, o Banco Central tem reduzido a taxa Selic. Dos 14,25% à época, a taxa básica caiu para 4,5% anuais atualmente. Grosso modo, isso significa que muitos produtos de renda fixa que conseguiam dar ao investidor retorno de aproximadamente 14% agora não chegam a 5%.

A má notícia, olhando pela ótica do rendimento da renda fixa, é que os juros devem continuar baixos. Segundo o relatório Focus do BC, que reúne expectativas de economistas para os principais indicadores do país, a Selic deve encerrar 2020 nos mesmos 4,5% e a inflação deve girar em torno de 3,60%.

Isso significa que, descontados impostos e taxas, o investidor pode ter uma rentabilidade real (descontada a inflação) quase nula ou negativa. Títulos como o Tesouro Selic podem fazer o investidor perder dinheiro. Como se proteger, então? A resposta é conhecida da maioria dos investidores: diversificar.

O Tesouro Selic (LFT) não precisa ser totalmente descartado, segundo analistas. Ele ainda pode ser usado para alocar parte da reserva de emergência. “Uma reserva de emergência, por exemplo, tem que continuar alocada em ativos básicos, como CDB, fundos DI ou Tesouro Selic”, afirma Bruno Saads, sócio e líder de renda fixa da XP Investimentos. A principal vantagem desse título é que caso o investidor precise do dinheiro e resgate antes do vencimento, ele não tem perdas: os ganhos serão iguais aos da Selic.

Além de aplicar parte das economias em ativos com liquidez, para formar uma reserva de emergência, é interessante que o investidor também se proteja contra a inflação. Para isso, ele pode apostar em ativos como o Tesouro IPCA (NTN-B). Como o próprio nome sugere, o retorno desses títulos seguem a inflação.

“É importante lembrar que o Tesouro IPCA vale mais a pena se o investidor ficar até o vencimento. Ele tem que manter ali na carteira, para não ter risco de perda”, diz Sandra Blanco, consultora de investimentos da Órama.

Outra dica da especialista é comprar títulos com prazos de vencimento mais curtos, para mitigar os riscos. Isso porque, caso os juros subam (ainda que pouco), os títulos atrelados à inflação caem de preço. “Olhando no longo prazo, como as taxas de juros já estão em patamares muito baixos, é mais fácil que subam do que caiam”, afirma Sandra.

Mas além de garantir proteção e liquidez, ainda há como ganhar com a renda fixa em 2020? Para os especialistas, sim. E o principal disso vem do crédito privado, quando empresas particulares emitem títulos para levantar capital. Trocando em miúdos, é como se fosse o investidor emprestando dinheiro para as companhias e recebendo os juros disso lá na frente.

“Antes, o BNDES era um dos principais financiadores das empresas. Agora isso acabou. Então, as companhias precisam se financiar no mercado financeiro”, afirma Philipe Aguiar, economista da Ativa Investimentos. Por isso, sugestões como debêntures, CDBs, LCIs e LCAs podem ser uma boa opção. Segundo o especialista, esses produtos tendem a entregar uma rentabilidade igual ao IPCA mais 6% a 8% ao ano.

Para o investidor que não é familiarizado com esses investimentos, uma boa opção pode ser buscar fundos de investimento, onde um gestor é responsável por escolher os ativos que vão compor aquela carteira. “Os fundos de debêntures incentivadas e de crédito privado devem ser o carro chefe para 2020. Encontramos fundos de debêntures que rendem entre 150% a 160% do CDI, que é muito bom para quem não tem experiência”, afirma Aguiar.