Negociação salarial de 2025: a sanção do PL 5874/25
Toda grande negociação expõe mais do que números. Ela expõe escolhas.
Quando o ódio simplifica, o amor constrói
A sanção do Projeto de Lei 5874/25, da negociação salarial, consagra não apenas uma conquista concreta, mas a escolha de um caminho: o da firmeza, da responsabilidade e do compromisso com a categoria.
Toda grande negociação expõe mais do que números.
Ela expõe escolhas. Ao longo desse processo, houve momentos em que o caminho do ódio pareceu o mais fácil. O da ruptura pela ruptura. O do embate como fim em si mesmo. O da palavra acesa, do gesto de confronto, da recusa em reconhecer que, na vida real, as conquistas duradouras não nascem do grito isolado, mas da capacidade de sustentar uma luta com inteligência, firmeza e direção.
O ódio tem uma sedução própria. Ele simplifica. Ele promete catarse. Ele oferece a ilusão da força imediata. Mas quase sempre cobra um preço alto: estreita horizontes, empobrece a política e, no fim, costuma deixar mais ruína do que resultado.
Nós escolhemos outro caminho.
Escolhemos o amor. Não um amor ingênuo, passivo ou conformado. Não um amor que baixa a cabeça diante da injustiça. Mas um amor lúcido: amor à categoria, amor à sua dignidade, amor à responsabilidade de não desperdiçar a oportunidade histórica de transformar indignação em conquista concreta.
Foi esse amor - maduro, vigilante, combativo - que nos trouxe até aqui.
Uma conquista que não avançou sozinha
Porque a verdade precisa ser dita com serenidade: esta negociação não avançou sozinha. Ela avançou porque houve quem a empurrasse com seriedade, consistência e presença. Avançou porque houve quem assumisse o peso da construção, quando seria mais fácil apenas incendiar o ambiente. Avançou porque houve quem compreendesse que protagonismo não é fazer mais barulho, mas abrir o caminho quando o impasse parece fechá-lo.
Foi essa força serena que moveu o processo.
Enquanto muitos viam apenas frustração, houve quem enxergasse tarefa. Enquanto muitos se deixavam capturar pela lógica do ressentimento, houve quem permanecesse de pé, calculando, organizando argumentos, mobilizando colegas, acumulando energia política, convertendo decepção em pressão efetiva. Enquanto o impasse convidava ao descontrole, houve quem escolhesse a disciplina.
Não foi um caminho simples. Houve cansaço. Houve amargura. Houve, muitas vezes, a sensação de que a categoria estava sendo testada além do aceitável. Houve dias em que a revolta parecia não apenas legítima, mas inevitável. E justamente por isso esta conquista tem um valor ainda maior: porque ela não nasceu da negação dessas feridas, mas da decisão consciente de não permitir que elas ditassem o rumo da nossa ação.
Essa talvez seja a diferença mais importante.
Há quem transforme a inconformidade em destruição. E há quem transforme a inconformidade em construção. Há quem faça da raiva uma identidade, mas essa não é a nossa identidade. A nossa identidade está na firmeza que assume responsabilidades, conduz, insiste, negocia, suporta o desgaste e segue adiante até produzir resultado. Foi esse segundo caminho que prevaleceu.
A vitória de uma forma de lutar
A sanção deste projeto, por isso, não representa apenas a conclusão formal de uma etapa. Ela representa a vitória de uma concepção de luta. A vitória de uma categoria que soube ser firme sem ser inconsequente. Que soube enfrentar sem se perder no enfrentamento. Que soube sentir a dor do processo sem se entregar ao veneno que tantas vezes nasce dela.
Entre o amor e o ódio, vencemos pelo que construímos.
Vencemos porque recusamos a facilidade estéril da fúria e escolhemos o trabalho paciente da conquista. Vencemos porque não abrimos mão da energia da luta, mas demos a ela propósito. Vencemos porque entendemos que dignidade não se afirma apenas na recusa; ela também se afirma na capacidade de conduzir, de persistir e de arrancar da realidade aquilo que parecia improvável.
Nada disso veio por concessão. Nada disso caiu do céu. Nada disso aconteceu por inércia.
Chegamos até aqui porque houve protagonismo verdadeiro. Protagonismo de quem não terceirizou a luta. De quem não se contentou em assistir ao processo. De quem entrou em campo para mover a negociação, sustentar a mobilização e transformar uma pauta justa em resultado político concreto.
É isso que hoje deve ser celebrado.
Não apenas o resultado final, mas a forma como ele foi alcançado. Não apenas a sanção, mas a trajetória. Não apenas o ganho objetivo, mas a demonstração de maturidade coletiva que tornou esse ganho possível.
Saímos desse processo com mais do que uma vitória. Saímos com uma afirmação.
A afirmação de que a nossa categoria sabe lutar.
A afirmação de que sabe conduzir.
A afirmação de que sabe assumir responsabilidades quando o momento exige grandeza.
E a afirmação de que, quando o ódio tenta impor seu ritmo, ainda somos capazes de escolher algo mais difícil e mais forte: o compromisso.
No fim, foi ele, o compromisso, que nos trouxe até aqui.
E é ele, mais uma vez, que honra esta conquista, o compromisso de saber que somos todos Analistas-Tributários.
Thales Freitas
Presidente do Sindireceita
